DEVANEIOS
Setembro 30, 2007 at 6:16 pm | In Sem-categoria | Leave a CommentCaminhou até a porta. O sol de 38 graus fazia o corpo pedir descanso e um copo d’água.
Nos últimos 20 passos tentou treinar um sorriso que não queria sair. Balbuciava palavras tentando exercitar um princípio de diálogo para suavizar a tensão.
Girou a maçaneta. As dobradiças da porta gemeram, o tempo havia enferrujado o caminho.
Estômago em reviravoltas, suor nas mãos, coração que, de tanto pular, doía.
Barreira lentamente transposta, a luz entrou. Colocou a cabeça para dentro, fazendo da madeira um escudo para o resto do corpo.
Enquanto entrava, esboçou o sorriso treinado. Abriu aos poucos os olhos buscando a figura por tempos oculta, mas sempre clara nas fugas mentais.
E ela não estava lá.
Piscou várias vezes, girando o corpo para todos os cantos da sala sem janelas. Nenhum sinal.
Respirou fundo, mas o ar faltava. Fez o caminho de volta praticamente tateando a cada passo, os olhos não queriam crer na realidade como se mostrava.
No carro, a 30 por hora, as buzinas alheias nem incomodavam. Odiava mesmo sextas-feiras.
E o gato atropelado na rua a caminho de casa dizia mais do que queria dizer.
SABEDORIA
Setembro 16, 2007 at 5:02 am | In Sem-categoria | Leave a CommentPor William Faulkner:
“A suprema sabedoria é ter sonhos suficientemente grandes para não perdê-los de vista enquanto os perseguir”.
MINHA GENTE
Setembro 8, 2007 at 5:17 am | In Sem-categoria | Leave a Comment(do dia 7)
Já podeis, da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil:
já raiou a liberdade no horizonte do Brasil.
Já raiou a liberdade, já raiou a liberdade no horizonte do Brasil!
Brava gente brasileira! Longe vá, temor servil!
Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil…
(Hino da Independência – Evaristo da Veiga e Dom Pedro I /1822)
Independente ou não, hoje minha pátria agarra o pandeiro e o tambor. Samba e marcha sob o sol do país tropical.
E eu penso nessa gente, minha gente, com quem cruzo todo dia. Tantas vezes eu cansada da minha vida mansa, vejo os operários voltando da labuta no fim de tarde. Sempre me emociona a dignidade dessas pessoas.
Lembro de um dia especificamente em que entrei em um desses condomínios de luxo, cujos habitantes andam sempre com os vidros dos carros levantados, ensimesmados e seguros de que aquilo é suficiente para criar dentro um mundo artifical que proteja da miséria que vem em cada carro lembrar que existe. Às vezes os de dentro sou eu.
Entrei, e na minha direção vinha um grupo de uma dúzia de operários, e atrás algumas empregadas domésticas. Rumo ao ponto de ônibus, cada um carregando sua sacola, cabelo penteado, blusa abotoada, passos firmes, rostos tristes e queimados de sol.
Dignos.
Lembro de ter pensado que aquela era a minha gente, e por mais que eu sempre queira fugir do patriotismo exacerbado, que exulta e se irrita, que cala e que grita, sem analisar nada – capacidade essa dada por essa terra rica de recursos naturais e que deveria esbanjar saúdes – eu tenho muito orgulho da minha gente, da gente brasileira.
Hoje é dia do Brasil independente. Independência gritada pelos portugueses e pseudo-aclamada pelo povo do Brasil.
E hoje, pensando “na minha pátria sem sapatos”, como diria o Poetinha, me vem ao coração essa pérola da música auriverde:
(…) São casas simples, com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio, peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar
(Gente Humilde – Vinícius, Chico e Garoto/69)
E eu que creio, hoje, no dia da independência do Brasil da minha gente, peço de ser digna desta terra, desse povo, digna de dar minha contribuição para que brilhe sempre “estrelado o seu lábaro” e pra que o “brado retumbante do povo heróico” não tenha sido em vão.
Porque independente ou dependente
A maior riqueza do meu Brasil
É sua gente.
NUMERO-LÓGICA
Setembro 4, 2007 at 3:07 am | In Sem-categoria | 1 Comment 
Assim naturalmente
Sempre me vem de dizer
Que dois é meu favorito
Dois é par, é de pares
É companhia, aconchego
Vontade de abraçar o outro
Porque existe o outro, são dois.
Hoje, porém, penso no quatro
Porque é dia de um querido amigo
Que é o dobro em ternura e serenidade
Digno de dois mais dois
De dois vezes dois
De dois elevado a dois
Ele é mesmo nascido em quatro.
Por isso no quatro me recordo dele
Nascido como eu no mês da primavera
Naquele que inaugura o “b.r.o.-bro”,
como dizem no nordeste,
Naquele que vem depois do “mês do desgosto”,
Como dizem os que não sabem o que dizer.
Setembro, portanto, deveria ser o mês do gosto
Da bonança, do afago,
Por isso, Thiago, é celebração
Da sua vida que é duplamente par
Duplamente doce, duplamente dar.
As honras de hoje a quem as merece
A quem manda postais aos amigos distantes
A quem dá a opinião, e a quem lembra
A quem é companheiro de troca de filosofias
Ainda que nesses dias o desencontro prevalece
Meu amigo desse quatro
Que já vai ser advogado
Que já vai ser o que ele quiser ser
Atravessa ponte todo dia
Atravessa país, visita
E veio ver a dona do dezesseis que mora cá no norte
No Natal passado, sem os fantasmas de Dickens
Veio me visitar, no susto,
Na alegria da surpresa
Trouxe augúrios e um abraço
Um perfume que adoro e adoram
Notícias e passado
E ficamos ali, conversando
Papeando juventude e lembranças
Frivolidades e doçuras
Planos e presente
E ficamos ali, conversando
Ele, eu, o perfume e a amizade
Os quatro
E porque hoje é o dia dele – hoje é quatro! -
Quatro extrazilhões de alegrias e realizações
Pro meu querido Thiago Ferreira
Porque ele é seis
Mais quatro.
SOL DE PRIMAVERA
Setembro 3, 2007 at 2:38 am | In Sem-categoria | Leave a Comment
Chato ficar colando poesia da vida dos outros, mas copiar também é uma arte!
E a minha cabeça tava dando voltas ontem com a música do Beto Guedes:
Quando entrar setembro e a boa-nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou
Juntos outra vez
Já sonhamos juntos, semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar
Já choramos muito, muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera, abre a janela do meu peito
A lição sabemos de cor, só nos resta aprender.
E não interessa que por mais que eu feche a janela sou invadida por leilões de corações e outras versões forrozeiras dos românticos…eu só quero o sol de primavera.
Bem-vindo setembro!
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